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Politica de PrivacidadeAgachamento, flexão, barra e prancha não pedem academia, mensalidade nem equipamento. É por isso que a calistenia, o treino com o peso do próprio corpo, cresceu entre quem quer sair do sedentarismo sem grandes barreiras de entrada.
O ponto menos comentado é que ela também entra na conta do coração: a Organização Mundial da Saúde recomenda que todo adulto some de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, e faça exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. É exatamente essa segunda parte que a calistenia cobre. No Brasil, apenas 8,6% dos adultos cumprem a recomendação de fortalecimento muscular no tempo livre, segundo análise da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019.
O tema ganha peso em setembro. As doenças cardiovasculares matam cerca de 400 mil brasileiros por ano, aproximadamente 30% de todos os óbitos do país, e a própria Sociedade Brasileira de Cardiologia estima que 80% desses casos seriam evitáveis com controle de pressão, colesterol, tabagismo e atividade física regular. Marco Aurélio Souza, cirurgião ortopédico do Samaritano Barra, da Rede Américas, rede privada de hospitais do Brasil, e Tais Sarmento, coordenadora de cardiologia do Hospital da Bahia, listam oito cuidados para quem vai começar.
Agachamento até a cadeira, flexão com as mãos apoiadas na parede ou em um banco e prancha com os joelhos no chão são pontos de partida legítimos. Fazer a versão adaptada com técnica limpa vale mais do que arrastar a versão completa com a lombar cedendo.
Desconforto muscular que aparece um ou dois dias depois e some sozinho faz parte. Dor durante o movimento, dor articular, dor que persiste por mais de 72 horas ou que muda a forma de andar pede avaliação. Nenhuma dessas é sinal de treino bem-feito.
Na calistenia, a carga é o corpo, então a evolução vem de mudar a alavanca: subir os pés, reduzir o apoio, aumentar a amplitude, segurar mais tempo na fase difícil. A régua para avançar é dominar a execução atual em todas as repetições da série, não apenas na primeira.
Movimento mal executado transfere sobrecarga para ombro, punho, joelho e coluna. Vale gravar a série de lado para conferir a postura. O mesmo grupo muscular pede pelo menos 48 horas entre sessões intensas, intervalo recomendado pelo American College of Sports Medicine, porque o ganho de força acontece na recuperação.

Pessoas sedentárias há muito tempo, em retomada após lesão, com dor crônica ou com histórico de cirurgia ortopédica se beneficiam de uma avaliação prévia. A orientação profissional adapta o movimento à condição de cada um e encurta o caminho.
Segundo Tais Sarmento, do Hospital da Bahia, “Para o coração, as duas coisas se somam. Quem treina só força atende metade da recomendação da OMS”.
Uma saída prática é montar a calistenia em circuito, com intervalos curtos entre exercícios, o que eleva a frequência cardíaca e aproxima a sessão de um estímulo aeróbico, sem abrir mão da caminhada, corrida ou bicicleta nos outros dias.
Uma meta-análise em rede com 270 ensaios clínicos randomizados e 15.827 participantes, publicada no British Journal of Sports Medicine em 2023, mostrou que o treino isométrico foi a modalidade associada à maior redução da pressão arterial de repouso, com queda média de 8,24 mmHg na sistólica e 4 mmHg na diastólica, à frente do aeróbico e do resistido dinâmico.
O exercício com melhor desempenho para a pressão sistólica foi o agachamento isométrico contra a parede, mantido em séries de cerca de dois minutos, três vezes por semana, que é o protocolo usado nos estudos. Manter uma prancha por 30 segundos no meio do treino não reproduz esse efeito. O detalhe que muda o resultado é a respiração: prender o ar durante o esforço provoca pico agudo de pressão, o oposto do efeito desejado.
Hipertensão, diabetes, colesterol alto, obesidade, tabagismo, histórico familiar de infarto precoce ou doença cardiovascular já diagnosticada mudam a conversa. “A avaliação cardiológica define intensidade segura e o que evitar. Durante o treino, dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura, palpitação ou suor frio pedem interrupção imediata e atendimento”, afirma Sarmento.
“A calistenia é uma forma bastante acessível de exercício, mas o fato de utilizar apenas o peso do corpo não significa que esteja livre de riscos. A progressão deve acompanhar a capacidade de cada pessoa, respeitando técnica, descanso e limites individuais”, explica Marco Aurélio Souza.
Por Monique Dutra




